5.27.2007

narrativa e resignação . 2

Fazer o que seja é inútil.
Não fazer nada é inútil.
Mas entre o fazer e não fazer
mais vale o inútil do fazer.
Mas não, fazer para esquecer
que é inútil: nunca o esquecer.
Mas fazer o inútil sabendo
que ele é inútil, e bem sabendo
que é inútil e que seu sentido
não será sequer pressentido,
fazer: porque ele é mais difícil
do que não fazer, e dificil-
mente se poderá dizer
com mais desdém, ou então dizer
mais direto ao leitor Ninguém
que o feito o foi para ninguém.


João Cabral de Melo Neto
[“O artista inconfessável”, in: Museu de tudo, 1975]

otto intensidades do corpo

onde moram intensidades de vida
em que cor a pele e a sensação do tato
que passadas largas te levam ao infinito em um instante
harmonia, leveza?
"de quantos afetos você é capaz?"

otto, esse "bailarino contemporâneo"
é música e dança
infinitamente quente e quieto

"Na vida tenho muito que dançar
Para aguentar o peso
Pra parar de pensar no erro
Por que você não quer
Ficar tranquila um pouco
Seu rosto é mais bonito rindo "

5.24.2007

aos amantes

E que seja perdido o único dia em que não se dançou.(Nietzsche)

5.22.2007

modigliani




"Mas o mais interessante no filme é observar como Modigliani e seus companheiros, os grandes (e razoavelmente obscuros) Soutine e Utrillo, entregavam-se a suas visões de mundo e delas não abriam mão nem sob tortura (morrem todos loucos, internados em manicômios, alcoólatras, drogados, marginais, mas fiéis a si mesmos). Modigliani via as pessoas de um jeito muito específico e as pintava dessa maneira; poderia pintá-las de um modo belamente tradicional, tinha habilidade para tal, mas não o fazia, não podia fazê-lo... Preferia passar fome, ficar doente, morrer, a trair sua arte. Não era um discurso, era sua vida inteira. Por quê? O que o movia, que valores? Hoje rotulamos essa atitude como romântica e nos abrigamos em nossos aquários de cinismo e pragmatismo, nos localizando saudavelmente operacionais em nosso fantástico mundo de serviços... Que força movia Modigliani, Soutine, Utrillo, Renoir? E por que essa loucura não faz parte de nossas vidas? Por quê?"
[Roberto Alvim]

5.21.2007

narrativas e resignação . 1

"Damiana via coisas estranhas acontecerem ao pai, quando ele olhava para rolos de pergaminho. Os sinais ali inscritos não se moviam nem mudavam, mas era como se algo estivesse a transcorrer naquela superfície imóvel, porque enquanto Eleazar a fitava seu rosto ia se modificando. Tantas e tantas vezes ela tinha rodeado o pai na ponta dos pés e espiado por sobre o seu ombro, para ver por que motivo aqueles adornos o transformavam. Depois voltava a se postar de frente para o seu rosto. Está preocupado, pensava ela, está olhando para algo que não compreende; mas então, sim, começava a compreender e a face relaxava, apenas para no instante seguinte começar a se alargar numa incredulidade de olhos bem abertos, olhos que se erguiam de volta até o ponto que tinham acabado de examinar, e logo depois ele balançava a cabeça quase imperceptivelmente, e seus lábios se moviam em silêncio, formando palavras sem som; como se isso fosse possível - palavras sem som."
[bráulio tavares, a máquina voadora, p. 22]

arte dança vida




um esboço, apenas

A tessitura da obra de Ana Cristina Mendes é desenho movente a se perguntar: que desenho fazemos de nós?
Essa tessitura, fabricada aos poucos por ela, desfia no próprio corpo da artista que compõe suas telas de mundo de um tecido corporal desdobrado da pele, uma vez que ganha o suporte do movimento. Ana Cristina desenha um corpo que se desenha, ao mesmo tempo que desloca no espaço os movimentos e os olhares internos e externos daquele que faz e observa.
Seu trabalho é corpo de memória, do espaço-tempo ligado por linguagens distintas em cada capítulo de sua escritura. Panos, recortes, objetos orgânicos, são o conjunto de sua “verdade”. Ana desdobra a obra em conhecer-se e conhecer o outro. É parada no tempo da observação, onde moram traçados, palavras e gestos corporais.
Ao “sentir na pele os escritos”, tanto a artista como o espectador transformam-se, em simultânea e contínua construção. Trabalho de artista e artesão que segue, entre seus materiais, os ingredientes da intuição.
fátima souza
[fortaleza, 08 maio 07]

nova música brasileira

andei lendo sobre a nova música brasileira. por sinal, preciso dizer que adoro ler dissertações, que elas me ampliam o olhar sobre determinado tema. e sempre penso que as pessoas escrevem com paixão as dissertações. lígia cristine de morais bezerra, uma grande pesquisadora, escreveu sua dissertação escolhendo um inventário de artistas nordestinos que coloca lenine entre eles. e passei a gostar ainda mais de sua música e a considerá-lo ainda melhor compositor. compartilho com vocês um trechinho do trabalho:

[sobre Jack Soul Brasileiro, de Lenine]
"A cena nacional é contrastada com uma outra cenografia que remete ao estrangeiro, particularmente, aos Estados Unidos. Este país é recuperado pela referência a símbolos de sua cultura, tais como o Tio Sam e o chiclete, além da citação de uma cidade americana, Miami. Esses elementos aparecem justapostos a mais outros elementos típicos da cenografia brasileira: o tamborim, o pandeiro e o zabumba, a banana e a praia de Copacabana. É nestes versos, que são uma intertextualidade com uma canção de Almira e Castilho, cantada por Jackson do Pandeiro - o que já é um outro elemento da cenografia do nacional e também da cena englobante -, que o enunciador coloca a condição de que aceita o que é estrangeiro, particularmente o que é americano, desde que sua cultura, mais especificamente, sua música, seja também aceita. Ele reafirma, deste modo, a sua alma brasileira caracterizada pela abertura ao diálogo, mostrando que é a favor de uma incorporação do que é estrangeiro, mas é contra uma incorporação alienada deste."

a bailarina, por elvira vigna


A bailarina dança sozinha na frente de uma janela que dá para o nada. A impressão é de um certo contentamento com esse nada, eternidade bem-vinda para a qual todo o espaço do edifício se dirige: é o único ponto claro. Essa sucção em direção à janela se dá no mesmo momento em que a obra se apresenta como um último signo de memória, da existência física. E também como última possibilidade de linhas sinuosas a se contrapôr aos quadrados rígidos da janela para a qual a bailarina dá as costas e na qual dilui seus contornos.

5.15.2007

ruína e abandono


Em San Pedro: interferência, o grupo Alpendre Casa de Arte e Pesquisa recupera o clima dessas performances. O vídeo de 14 minutos fez parte do Dança em foco, um festival de dança filmada em vídeo que ocupou o Centro Cultural Telemar (RJ) no início de setembro de 2006. Nele, uma bailarina dança no espaço destruído de um edifício abandonado, o San Pedro (de Fortaleza), com cacos de vidro e pedras no chão.
A novidade é o vídeo.

das coisas que vamos deixando pra trás

está tudo planejado:
se amanhã o dia for cinzento,
se houver chuva
ou se houver vento,
se eu estiver cansado
dessa antiga melancolia
cinza fria
sobre as coisas
conhecidas pela casa
a mesa posta
e gasta
está tudo planejado
apago as luzes, no escuro
e abro o gás
de-fi-ni-ti-va-men-te
ou então
visto minhas calças vermelhas
e procuro uma festa
onde possa dançar rock
até cair.
[caio fernando abreu]

"de uns tempos pra cá
coisas são só coisas
servem só pra tropeçar

têm seu brilho no começo
mas se viro pelo avesso
são fardo pra carregar"

]chico césar[

5.09.2007

interferência: san pedro

o san pedro ainda mora em nós, e espalhado em alguns lugares da internet.
confiram!

em aguarrás, por elvira vigna
http://aguarras.com.br/2006/09/04/san-pedro-interferencia/

na mafua, por vitor da rosa
http://www.mafua.ufsc.br/eduardo.html

sobre o quarta-literária
http://www.botanacedaqueeufumo.weblogger.terra.com.br/index.htm

projeto no paço
http://www.fortaleza.ce.gov.br/imp_ver_noticias.asp?cod=n543213112006192049

no dança em foco - 2006
http://www.dancaemfoco.com.br/miv.html

na cronópios, por ivaldo ribeiro
http://www.cronopios.com.br/site/artigos.asp?id=1559

carlos augusto lima, por heitor ferraz
http://pphp.uol.com.br/tropico/html/textos/2750,2.shl
http://pphp.uol.com.br/tropico/html/textos/2750,2.shl

5.05.2007

hoje é dia de despedidas

em dias de despedida a gente disfarça a tristeza e comemora a vida!
agora sei que a gente morre mesmo aos poucos.
nossa, olhando pra casa, os vazios...
a alegria, a confusão, o amor, os olhares, as diferenças, a tolerância, a amizade...
tudo isso deixa uma marca tão grande no coração que por dentro a gente explode, de alegria e de saudade... saudade muita, essa que as palavras não conseguem expressar...
hoje tenho certeza que comemoramos cada minutinho juntos, hoje tenho certeza que vivemos 10 anos em 10 dias, que crescemos, que choramos por dentro, que nos conhecemos mais, que ficamos alegres no encontro e tristes na partida...
a saudade nos faz acreditar que o amor preenche os minutos da vida, e que ela, acima de tudo é pura alegria soberana!!!
na despedida, hoje, dia 05 de maio de 2007, ecoa a voz de noel, o samba!!!!
meu reduto niteroiense permanece aqui comigo, mesmo longe no espaço-tempo!!!
por isso eu vou morar com as palavras...
todo meu amor a vocês!!!

pra enfeitar a vida

eu aproveito esse momento bonito de sol pra indicar duas marcas que eu adoro, que eu acho que ajudam a enfeitar a vida, a demonstrar a alegria que são os encontros. vale dizer: todas despretensiosas!!!

elvira matilde
www.elviramatilde.com.br

dona fulô

http://www.donafulo.com.br/

bom fim de semana!!!

5.03.2007

jorge mautner - o filho do holocausto

"... e tudo isso foi construindo e criando esse imortal chão de terra e solo de paixão brasileira-universal de onde e através da qual construí meu ser, minha alma, minha arte, minha poesia, minha música, reconstituí os fragmentos despedaçados de minha origem torturada e enlouquecida pelo Holocausto e renasci como ser ressuscitado pelo Brasil..." (pág. 61)

vamos comer caetano!

uma das grandes alegrias que tive nessa vida foi conhecer waly salomão
diante de tudo, de sua verborragia, de sua presença larga e seu riso rasgante,
descobri a origem do meu nome ser árabe pelas bocas desse grande poeta.

outra grande alegria é ver os tempos mudar, e fico então me perguntando a que tempo pertencemos nós. e essa sensação, de algo pulsante, tive ao ouvir caetano cantando waly salomão. e que agora compartilho a letra com vocês.

waly salomão
caetano veloso


meu grande amigo
desconfiado e estridente
eu sempre tive comigo
que eras na verdade
delicado e inocente

findaste o teu desenho
e a tua marca sobre a terra resplandece
resplandece nítida e real
entre livros e os tambores do vigário geral
e o brilho não é pequeno

eu sigo aqui e sempre em frente
deixando minha errática marca de serpente
sem asas e sem veneno
sem plumas e sem raiva
suficiente

quem sou eu

niterói // fortaleza, entre telas